sábado, 22 de outubro de 2011

O esforço de uma professora para trazer de volta à escola alunos evadidos

No ano 2000, eu trabalhava na MultiRio, uma empresa de multimeios da Prefeitura do Rio de Janeiro, que produz programas educativos transmitidos, na época, pela TV Bandeirante e pelo Canal 03 da NET. Eu era editora jornalística, repórter e roteirista dos programas “Cidade e Educação” e “Orgulho Carioca”. Nos meus três anos de trabalho na empresa, percorri escolas públicas e nelas testemunhei o trabalho incansável de vários profissionais de educação: professores de educação física que fizeram da rua uma extensão da escola ao usá-la como pista de atletismo em horários fora da grade escolar ocupando, assim, o tempo das crianças com atividades que fazem bem ao corpo e à mente; professores de artes industriais que, junto com seus alunos, restauraram todo o mobiliário de sua escola, ensinando-os, não só um ofício, mas conscientizando-os para a importância da conservação; e professores de história que usaram as artes cênicas como um de seus instrumentos de ensino, fazendo com que seus alunos passassem a se interessar, com entusiasmo, pelo passado de seu país. Mas, uma professora, em especial, não me sai da cabeça. É Antonia Beriuca da Silva, que, na época, lecionava no Ciep Carlos Drumond de Andrade, uma das escolas em que foi implantado o programa “Aceleração de Aprendizagem”, cujo objetivo era levar, até a quinta série, alunos já alfabetizados, mas que tinham dois ou mais anos de defasagem. Aquela mulher, de aparência simples, ensinava pacientemente em sua sala de aula, sempre de portas abertas, porque não queria manter os alunos trancados, para que não se sentissem forçados a aprender. Restabelecer o fluxo escolar normal de jovens é um desafio e tanto. E, para a professora Antonia, o desafio era ainda maior, porque havia várias crianças que faltavam e se evadiam da escola. Algumas ela conseguiu trazer de volta, depois de tê-las procurado pelas ruas, em terrenos baldios, embaixo de pontes e viadutos. Eram jovens que foram rotulados durante muito tempo, taxados de incapazes, que desconheciam carinho. Quando os encontrava, a professora Antonia se aproximava e dizia:
“Venha..., eu posso lhe dar amor; talvez não o que você mereceria receber, mas eu posso lhe dar amor. Não estou trabalhando com você para transformá-lo em catedrático ou doutor. Quero trabalhar com você para que você seja alguém na vida que saiba vencer as dificuldades”.
A professora Antonia não conseguiu resgatar todos os evadidos. Mas, cada vez que um voltava à sala de aula, ela via seu esforço recompensado.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Maralto, de Luiz Carlos de Souza, é exemplo raro de jornalismo literário



Luiz Carlos de Souza é jornalista, escritor, poeta e músico. Na noite do dia 12de abril, na Associação Brasileira de Imprensa (ABI), cercado de amigos, Luiz Carlos lançou a segunda edição do livro Maralto: relato de uma pesca perigosa, editado pela Booklink Publicações.
Muito mais do que um relato de uma pesca perigosa, Maralto é exemplo de um gênero – o livro-reportagem - que poucos jornalistas puderam e podem experimentar. Ele o fez ainda jovem, aos 27 anos de idade, numa época (nos anos de 1970) em que o jornalismo foi marcado pela ausência da reportagem. O que se lia nos jornais eram notícias e matérias transcritas quase que na íntegra dos press-releases oficiais. Nas escolas de comunicação, pregava-se a objetividade e neutralidade do jornalismo, e a fronteira entre jornalista e escritor era bem demarcada. Luiz Carlos transgrediu as regras. Observando os barcos de pesca ancorados na Praça Quinze, no Rio de Janeiro, durante suas idas e vindas à sucursal do Jornal do Brasil em Niterói, ousou acompanhar, do início ao fim, a bordo de uma traineira, o trabalho árduo dos pescadores de linha, expostos, durante dias infindáveis (de 17 de agosto a 11 de setembro de 1972), aos perigos do alto-mar em seus minúsculos caíques, a 400 milhas (740 km) da costa de Vitória, no Espírito Santo. Seu companheiro de trabalho, o fotógrafo Almir Veiga, também estava lá, “clicando” tudo em preto e branco. São dele as fotos que ilustram a capa e a contracapa do livro. O resultado é MARALTO, uma narrativa rica e detalhada que reflete o drama de uma categoria profissional presa a normas peculiares de relações de trabalho; não há lei que a protege.
Na neutralidade exigida do repórter, Luiz Carlos expôs sua parcialidade em cada palavra escrita sobre os temores, a solidão, os amores e desamores, a saudade e a coragem daqueles homens do mar. Revela a determinação e o interesse em tornar pública a luta diária dos trabalhadores do mar até hoje submetidos à exploração do homem pelo homem, embora todos estejam, ao fim do dia, no mesmo barco e exista uma camaradagem imensa entre todos, como escreveu o autor. E, Luiz Carlos não teve medo de expor suas próprias emoções ao testemunhar o pulsar dos acontecimentos na aventura diária vivida por homens que, do fundo do mar, tiram o sustento de suas famílias. Ele o fez com muita competência. Militante da mais instigante de todas as profissões – o jornalismo - no dizer da jornalista e escritora Cláudia Werneck, Luiz Carlos expôs o seu prazer de conhecer gente de seu país, e exercitou o que o professor Edvaldo Pereira Lima, doutor em Ciências da Comunicação e professor da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, chama de Jornalismo Literário Avançado, “uma proposta diferenciada, que recupera a grande reportagem, lançando-a a novos patamares em busca de excelência no diálogo com o leitor”. Maralto, é um exemplo desse diálogo: o leitor tem a impressão de estar participando daquela viagem e vivenciando, ao lado de Luiz Carlos, a luta diária dos pescadores profissionais.
Tão logo retornou do mar, Luiz Carlos publicou uma série de quatro reportagens no Jornal do Brasil. Em 1976 MARALTO foi publicado. Mas o livro continua sendo atual. De lá para cá, nada mudou na pesca de linha. Apenas uma novidade: os caíques estão hoje equipados com rádios que se comunicam com o barco-mãe. Isso ajuda quando um pescador está perdido.
Que este livro seja lido também por estudantes de jornalismo. Além de aprenderem um pouco mais sobre a realidade brasileira, em Maralto eles terão um raro exemplo de livro-reportagem.

sábado, 9 de abril de 2011

O sapato apertado

O avião acabara de levantar vôo do Galeão, no Rio de Janeiro. Seu destino: Porto Alegre. Um dos passageiros, Luiz, não aguentava mais a dor nos pés. Tudo por causa de um par de sapatos novos. Aliás, sempre foi assim, há mais de quarenta anos. Cada sapato novo, uma nova dor. Por isso, não gostava de comprar sapatos. Para Luiz, nada melhor do que sapatos velhos já alargados de tanto andar.
Os sapatos que machucavam seus pés dentro daquele avião tinham sido comprados na tarde do dia anterior, depois de ter ido ao barbeiro. Queria se apresentar bem vestido e calçado, com cabelos cortados e barba feita na conferência que iria proferir durante um simpósio sobre o Estado Novo, no Departamento de História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
O avião posou no Aeroporto Salgado Filho na hora prevista. Como a conferência estava marcada para as 3 horas da tarde, Luiz pensou em aproveitar a manhã para colocar a conversa em dia com seu grande amigo Dilson, jornalista e historiador, e que também participaria do simpósio. Por isso, foi até o apartamento dele na Avenida Independência. Fazia tempo que os dois não se encontravam. Falavam muito por telefone. Eram ligações intermináveis, durante as quais assuntavam sobre política, futebol, literatura, cinema e amigos comuns.
No aeroporto, Luiz pegou um táxi. Os pés continuavam doendo. A essa altura seus calcanhares já estavam com bolhas. Do táxi até a entrada do prédio foi uma tortura andar. Não precisou esperar muito pelo elevador. Luiz saltou no 14o andar e tocou a campainha no apartamento 1403, Dílson não demorou a abrir a porta e, depois do abraço de boas-vindas, Luiz foi logo reclamando dos sapatos que apertavam.
− Se os sapatos apertam tanto, vamos comprar um novo par − sugeriu Dílson −, tentando solucionar rapidamente o problema do amigo.
E lá foram os dois a uma sapataria. Não tiveram de andar muito, embora Luiz estivesse se arrastando rua acima.
Na sapataria, escolheu um sapato preto, parecido com o que usava. O vendedor, depois de ouvir os lamentos do professor, perguntou que número calçava.
− Trinta e nove – disse o freguês machucado.
Minutos depois, o vendedor voltou com duas caixas; abaixou-se e ajudou Luiz a experimentar o sapato novo.
− Engraçado, esse também aperta – disse Luiz. Até meu pé se ajustar vai demorar de novo.
O vendedor, calmamente, abriu a outra caixa e dela tirou um novo sapato. Mais uma vez abaixou-se e ajudou Luiz a calçá-lo.
− E esse, professor, também aperta?
Luiz levantou da cadeira, deu alguns passos e espantado disse:.
− Gozado, é a primeira vez que calço um sapato novo que não dói.
− É porque o senhor não calça 39.
− Como não?
− O senhor calça 40.
− Mas meu pai sempre me disse que eu calçava 39.

domingo, 27 de março de 2011

Tiziana Bonazzola, uma saudade


Tiziana nos deixou. Aos 90 anos de idade, seu corpo disse não à vida. Um anjo a levou e agora ela é mais uma estrela na constelação de seres humanos que foram imprescindíveis. Tiziana Bonazzola era artista plástica. Adorava pintar paisagens e flores. E o fazia com maestria e muita sensibilidade. Aos cinco anos de idade, seu tio Gulio Cisari, pintor e gravador que vivia em Milão, deu-lhe uma caixa de aquarelas e ela começou a pintar o que a encantava de observar: rosas, fura-neves e outras flores do jardim de sua casa em Varese, na Itália, onde nasceu. A natureza era uma de suas preocupações e foi registrada no catálogo de sua última exposição no Museu Nacional de Belas Artes, em maio de 2008, no Rio de Janeiro: “Gostaria que minhas obras fizessem lembrar aos jovens a importância de observar a natureza e vibrar com ela. Uma rosa desabrocha, se abre e depois cai com suas pétalas, mas nos doa sua beleza”, escreveu. Tal como as rosas, Tiziana era bela, por dentro e por fora. Generosa, acolhedora, tolerante, pacificadora, suave e afetuosa. Às vezes parecia frágil, mas era mulher de fibra. Em sua juventude enquanto estudava arte, veio a guerra e, com ela, a ocupação de seu país, a Itália. Movida pelo desejo à liberdade, como todos os seus compatriotas, Tiziana engajou-se na resistência levando, diariamente, em sua bicicleta, materiais que o seu irmão ativista e líder partegian, mandava para os seus companheiros. Na cerimônia de cremação do corpo de Tiziana, no Rio de Janeiro, foi lido um e-mail que um velho companheiro da resistência enviou à família (tão logo soube de seu falecimento) relembrando os feitos da então adolescente idealista. Tiziana se foi. Seu ideal por um mundo melhor permanece, assim como permanecem a sua obra e a imagem de mulher guerreira, esposa dedicada, mãe exemplar, avó “coruja” e amiga na tristeza e na alegria. Tiziana se foi. Fica a saudade e a lembrança de uma das pessoas mais sensíveis que já conheci. Ter convivido com Tiziana, por longos anos, é algo que carrego como um troféu.
Foto: Isis Braga

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Segredos da propaganda anticomunista



A noite de 09 de fevereiro de 2011, na livraria Argumento, no Leblon (RJ) foi uma noite de encontro de amigos e de amigos de amigos de Geraldo Cantarino, um amigo de longa data, daqueles que a gente guarda no coração por toda uma vida. Lá estavam ex-professoras do tempo da escola primária (para mim, as pessoas mais importantes na formação de nosso filhos), amigos de infância, do tempo de faculdade e das várias fases da sua vida profissional. Geraldo estava lançando seu terceiro livro: Segredos da propaganda anticomunista, editado pela Mauad. Veio de Londres, onde trabalha e mora com sua família, especialmente para esse evento, sempre importante para um autor.
Jornalista, escritor e fotógrafo, Geraldo Cantarino escreve com clareza e objetividade, o que, aliás, se espera de todo jornalista, e com o mesmo estilo que marcam seus outros dois livros: A revolução para inglês ver e Uma ilha chamada Brasil (meu favorito, até então).
Segredos da propaganda anticomunista exibe, pela primeira vez, documentos diplomáticos britânicos sobre as atividades de propaganda anticomunista realizadas no Brasil pelo IRD (Information Research Department ou Departamento de Pesquisa de Informações). Estabelecido em 1948 e fechado em 1977, o IRD foi uma unidade secreta do governo do Reino Unido com a missão de combater a propaganda soviética e a influência do comunismo, principalmente, em países do Terceiro Mundo, durante a Guerra Fria.
Geraldo pesquisou durante três anos os arquivos a respeito, no The National Archives, que corresponde ao nosso Arquivo Nacional. Durante esse período, consultou mais de 50 pastas com centenas de documentos diplomáticos, relatórios secretos e correspondências confidenciais trocadas entre a Embaixada Britânica no Rio de Janeiro e o Foreign Office (Ministério das Relações Exteriores britânico), em Londres, sobre a atuação do IRD no Brasil, no tocante à propaganda anticomunista no período de 1948 ao início da década de 1970.
Tudo indica que até agora, não havia sido publicado, no Brasil, livro que mostrasse detalhes sobre as atividades do IRD no País. Geraldo Cantarino é autor, portanto, de um trabalho inédito, que mostra como o IRD operou, secretamente, no Brasil, por mais de duas décadas.
Com Segredos da propaganda anticomunista, Geraldo não tem a pretensão de ser historiador. Seu livro é o que se poderia chamar de livro-documento (ou será livro-documentário?) que poucos jornalistas experimentam. Ele espera (e eu torço por isso) que seu livro venha a contribuir para a compreensão de um momento específico da História e sirva de ponto de partida para análises e pesquisas futuras.
Tomara que Segredos da propaganda anticomunista seja lido por estudantes de jornalismo, para que aprendam um pouco mais sobre esse gênero jornalístico e sobre alguns pormenores das “batalhas” travadas durante a Guerra Fria.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Minha experiência na Antártica





Rio de Janeiro, 20 de dezembro de 1982. O navio oceanográfico brasileiro Barão de Teffé partiu do Arsenal da Marinha rumo à Antártica. No cais, uma multidão se despedia da tripulação e dos cientistas que estavam a bordo. Beijos, abraços, lágrimas de mulheres, mães, filhos, e promessas de namorados para um final feliz após o retorno. Dentre toda aquela gente estávamos nós, da então TV Educativa do Rio de Janeiro. Eu, a repórter, entrevistei algumas pessoas e descrevi o navio que havia sido adquirido da Dinamarca e incorporado à Marinha Brasileira naquele mesmo ano de 1982. Jornalistas dos principais jornais, rádios e emissoras de TV também estavam lá para registrar o início da Operação Antártica I. Dentro do Barão de Teffé estava Hermano Henning, na época, repórter da TV Globo. Bom repórter, por sinal. Ele e sua equipe iriam documentar as atividades brasileiras na região. Em função da importância daquele momento, lá estava também o então Ministro da Marinha, Maximiano Eduardo da Silva Fonseca. Fiz com ele uma longa entrevista. Quando nossa câmera e microfone foram desligados, aproveitei para reclamar: por que a TV Educativa também não estava lá dentro para acompanhar aquela viagem? Afinal, éramos uma emissora pública. O ministro respondeu, com certa ironia, que não havia lugar a bordo para mais de uma equipe e que ele mesmo gostaria de estar lá também. Prossegui com a minha crítica argumentando que, nesse caso, a TV Educativa deveria ser a emissora a registrar aquela operação e não uma emissora comercial. Usei todos os argumentos possíveis para defender meu ponto de vista em defesa da televisão pública. O navio partiu, o ministro foi embora, nós fomos para emissora fazer a matéria e tempos depois, Hermano Henning trouxe de volta uma reportagem muito boa. Meu problema não era com o Hermano Henning, nem com a TV Globo, mas com o governo brasileiro que privilegiava uma emissora comercial em detrimento da televisão pública, mantida com recursos públicos. Morreram ali minhas esperanças de um dia chegar à Antártica.
Na Operação Antártica II, o então diretor de jornalismo da TVE, Hamilton Alcântara, me chamou dizendo que a emissora havia sido convidada para cobrir a participação brasileira na Antártica e que eu havia sido designada para aquele trabalho. Infelizmente, na época, razões particulares não me permitiram ir. Assim, para lá foi a minha colega, amiga e comadre, Irene Cristina, que fez um belo documentário, apesar de uma série de dificuldades que encontrou por falta de organização dos responsáveis pela operação em terra. Pois bem, tirei de vez da minha cabeça a ideia de um dia conhecer a Antártica.
Mas lá estava eu em fevereiro de 1985, junto com o cinegrafista Toni Laport, registrando para a TV Educativa o trabalho de pesquisadores brasileiros na Estação Comandante Ferraz, que fica na Ilha Rei George, no abrigo "Engenheiro Wiltgen", situado na Ilha Elefante e no navio oceanográfico Barão de Teffé. Na verdade, eu fui cobrir o que eles chamavam (não sei se ainda chamam) de terceira pernada, ou seja, a etapa final daquela terceira operação.
Embarcamos, no Rio, num Hércules C-130 da FAB que dava apoio ao Programa Antártico Brasileiro, levando e trazendo cientistas e equipamentos para o navio Barão de Teffé e para a Estação Comandante Ferraz. Embora fosse um avião de carga, o Hércules cumpriu muito bem sua missão de transportar gente. Não houve quem não gostasse da experiência. Malas, contêineres, bolsas, sacolas, dragas, caixas com equipamentos dos cientistas, tudo estava num só compartimento, junto com os passageiros e tripulantes. Saímos do Rio no dia 21 de fevereiro. Pernoitamos em Pelotas e, de lá, seguimos para Punta Arenas, no Chile. No dia 23, às 7 horas da manhã, decolamos para a Antártica. Ficamos sabendo que a temperatura era de um grau negativo, com sensibilidade térmica de menos 10 graus, por causa do vento com intensidade de 25 nós. Nevava, mas havia teto e visibilidade. Pelo menos, era isso que nos informavam da torre da base chilena de Marsh, usada pelos aviões brasileiros. Quando sobrevoamos a passagem de Drake, tudo indicava que o pouso poderia ser realizado. Mas, a certa altura, o comandante do avião foi informado de que havia muita neve na pista e que a camada de gelo teria de ser removida. Assim, ficamos sobrevoando a área durante mais de meia hora. Depois da limpeza da pista, recebemos ordens para pousar. Cruzada a névoa intensa, voamos num céu azul, daqueles de brigadeiro. Lá embaixo, a ilha Rei George nos aguardava. Ela fica a leste da península Keller, na baía do Almirantado. É a ilha mais extensa do arquipélago das Shetlands do Sul. Tem 44 milhas de comprimento e 15 de largura. Ali, o Brasil construiu sua estação, próximo a um refúgio inglês, instalado em 1947 e visitado, pela última vez, pelos ingleses em 1983. Toni e eu acompanhamos tudo da cabine de comando do avião. Ele, naturalmente, não parava de gravar. Eu, sentada sobre uma espécie de maca, situada no alto, logo na entrada da cabine, tinha uma visão perfeita. Quanto mais nos aproximávamos, mais nos impressionavam as primeiras colinas de gelo. Sem sombra de dúvida, o pouso no continente antártico foi um dos momentos mais emocionantes da minha vida de repórter.
Em Marsh, a missão do Hércules estava cumprida. Fiz algumas entrevistas e, como todos ali, quando Tony e eu vimos o primeiro pinguim, corremos para registrá-lo com nossa câmera. As fitas que gravamos foram levadas para a TV-E, no Rio, pela tripulação do avião. Nosso voo e nosso pinguim seriam vistos no Brasil no dia 26 de fevereiro.
Da base chilena, fomos a Comandante Ferraz de helicóptero. Viver em Comandante Ferraz, ou em outras estações na Antártica, é viver em situação de quase confinamento. Isolados do mundo, sem notícias do Brasil, com dias da semana que não se diferenciam uns dos outros, os pesquisadores desenvolvem hábitos de convivência, talvez nunca imaginados, como os de dividir as tarefas domésticas. Ajudam a arrumar a casa, formada por um conjunto de contêineres; lavam louça, descascam verduras e legumes e ajudam a preparar carnes e frangos. Volta e meia, à tardinha, depois de um dia de trabalho, formava-se uma roda de samba improvisada, com violão, cavaquinho e maracá.
Do lado de fora, montanhas de vários tons de azul e branco nos impressionavam. São as cores do gelo antártico. Dentro d’água, grandes blocos de gelo flutuam para onde as correntes e os ventos os levam até derreterem em águas mais quentes, sabe-se lá onde. Na Antártica manda a lei da natureza e, por isso, tive a impressão de que o homem aceita mais facilmente a ideia de que Deus existe. É por isso também que em Ferraz e no próprio navio Barão de Teffé, as missas do capelão eram muito frequentadas. Por intermédio delas, fomos lembrados que era tempo de quaresma. Na Antártica, perdemos a noção de calendário.
Deixamos Comandante Ferraz e, já embarcados no Barão de Teffé (éramos cinco mulheres e 120 homens), prosseguimos viagem percorrendo as ilhas do arquipélago das Sheatlands do Sul, como Gibbs, Aspland, Eadie e Elefante. Na ilha Elefante são raros os dias de sol, mesmo no verão. Lá, encontramos o chamado pinguim antártico e o pingüim papua, que tem bico laranja. Nas pinguineiras dessa ilha, os filhotes estavam começando a perder suas penas. Era prenúncio de inverno. Logo, eles estariam emigrando. Um dado curioso é que os pinguins são muito fedorentos. Acho que é por causa da gordura que eles têm, sei lá. Só sei que uma das pinguineiras que visitei, com milhares de pinguins, chama-se Stinker Point.
Impressionante foi ver a ilha de Decepción, com seu vulcão ainda em atividade. Ela também faz parte das Shetlands do Sul. Num dos pontos de sua enseada, ocorrem as chamadas fumarolas. Lá, a temperatura da água chega a atingir mais de 80 graus. São gazes do interior superaquecido da crosta, formando contínuos vapores em contato com o meio exterior.
Na Antártica, o Barão de Teffé teve de enfrentar a fúria do mar, com ventos de 40 nós, ou seja, 74,6 km. Vagalhões moderados se formavam e as cristas das ondas com 4 metros se quebravam em borrifos. A espuma espalhava-se em faixas bem definidas na mesma direção dos ventos. Nessas condições, recomenda-se buscar abrigo.
Na Antártica eu vivi a experiência de conhecer um mundo sem fronteiras. Perto da base brasileira, ficavam as do Chile, da Polônia, da então Alemanha Oriental e da antiga União Soviética. Visitamos todas. Em cada uma, as portas sempre estavam abertas aos vizinhos, fosse qual fosse a coloração ideológica de seus governos (na época, o mundo ainda era dividido em dois blocos: o socialista e o capitalista). Em Artowsky, a base polonesa, ornitólogos brasileiros realizavam com seus colegas poloneses, o anilhamento de aves para observar suas rotas migratórias. Na entrada da base, as bandeiras polonesa e brasileira simbolizavam a cooperação entre os dois países. Terminado o trabalho dos brasileiros, chegou a hora da despedida. Os abraços calorosos revelavam a amizade que uniu aquela gente de mundos tão diferentes. Vi homens de quase dois metros de altura com lágrimas nos olhos no momento de dizer adeus aos brasileiros. Naquela mesma base, assisti a um concerto de música clássica em vídeo. Antes, fomos convidados a jantar. Como se tratava de um momento solene, os poloneses vestiam terno e gravata. Houve aplausos depois da exibição do concerto. Nós também aplaudimos, é claro. Talvez eles fizessem isso para lembrar que é preciso manter o ritual.
Na então base soviética, o comandante exibia em seu escritório um retrato de Pelé. Batemos um longo papo e, durante a conversa, ele nos ofereceu biscoitos soviéticos regados a guaraná do Brasil. O mesmo ocorreu na estação da então Alemanha Oriental, que era um braço da base soviética e na qual trabalhavam apenas seis pesquisadores. Eram biólogos e ecologistas.
Na Antártica, que eu conheci, era assim: nenhuma porta era trancada, mesmo quando uma equipe regressava ao seu país. Nenhum alimento era levado de volta na bagagem. Não sei se é apenas um costume ou regra estabelecida, mas a razão é simples: suponha que alguém se perca em seu caminho e precise de abrigo e comida. Uma base fechada, mas não trancada, pode ser o refúgio desse alguém.
No navio Barão de Teffé, vivenciei coisas interessantes. Os civis, inclusive nós, tinham de participar das chamadas paradas. De parada, não tinham nada. Eram as reuniões matinais que se realizavam bem cedo e nas quais os superiores passavam para os seus subordinados a rotina do dia.
Não me lembro bem com que frequência eram exibidos filmes. Um dia eu pedi ao imediato que programasse o filme Flashdance que já tinha sido exibido, mas antes da nossa chegada. O imediato disse que não seria possível porque para aquele dia estava programado um outro e que o Flash dance já fora visto pela tripulação. (Um parênteses: os pesquisadores que estavam no Barão de Teffé também participavam da terceira pernada. Quando eles embarcaram, os que os antecederam desembarcaram). Na verdade, foram as cinco mulheres que pleitearam a mudança do programa. Tínhamos o aval dos pesquisadores e de alguns oficiais. Mas o imediato não nos atendeu. Coisas de militares da época.
Quando fui fazer uma matéria na ilha Elefante, o comandante do navio não queria que eu fosse. Ele tinha medo de eu ter de ficar por lá, caso o tempo ficasse ruim. Como lá tinha um abrigo, eu disse a ele que estaria protegida. O argumento dele para eu não ir foi o seguinte: eu era uma mulher casada e não ficaria bem se eu tivesse de ficar num abrigo com meia dúzia de homens. Eu disse a ele que estava lá para trabalhar e não para fazer turismo. Fui para a ilha Elefante, não houve mudança de tempo e voltei para o navio ao anoitecer.
Trinta dias depois todos voltaram para casa. Naquela ocasião, os brasileiros ainda não passavam o inverno na base brasileira. Fomos à base chilena, dessa vez de barco, para lá embarcar num outro Hércules que nos levaria de volta ao Brasil. Quando lá chegamos, ficamos sabendo que o Hércules chegaria com atraso e que teríamos de pernoitar na base chilena. Foi uma sensação terrível. Estávamos no “fim do mundo” sem condições de voltar. No dia seguinte, quando fomos informados da chegada do avião, foi aquela alegria. Tony e eu preparamos o equipamento para gravar o pouso do avião. Assim que o avistamos fomos tomados de uma emoção indescritível; os olhos de alguns, inclusive os meus, se encheram de lágrimas e minha voz ficou embargada. Refeita da emoção, embarcamos. Dessa viagem resultou a reportagem Brasileiros no mundo branco exibida pela rede da TVE e pela TV Cultura de São Paulo.
Bem que eu gostaria de voltar à Antártica para poder comparar o ontem com o hoje. Quem sabe, um dia isso acontece.

sábado, 15 de maio de 2010

E por falar em ciência...no rádio!

Faz pouco tempo, ouvi na Rádio MEC um debate sobre rádio, do qual participou a radialista Taís Ladeira, da Empresa Brasil de Comunicação, responsável pelas rádios e tvs públicas brasileiras. Ela sabe muito, é uma radioapaixonada. Tenho orgulho de tê-la tido na equipe do projeto E por falar em ciência, que eu mencionei em artigo anterior, Ciência, rádio e TV. Ouvindo-a falar com a desenvoltura que lhe é peculiar, com clareza e objetividade sobre o tema que ela domina como poucos, senti vontade de falar novamente daquele projeto, resultado de um convênio assinado entre a Universidade Federal Fluminense e a Rádio MEC, que colocava o programa no ar. A produção, como eu já informei no artigo mencionado, era de alunos das turmas de Jornalismo Científico e de Radiojornalismo, matérias que eu lecionei, durante vários anos, no Departamento de Comunicação do IACS, da UFF .
No início, alguns alunos ficaram preocupados com uma nova realidade: a de produzir “pra valer”, um programa com informações científicas. Escrever, portanto, sobre ciência e tecnologia assustava um pouco. Mas, elaborar uma matéria científica não é muito diferente da produção de uma matéria política ou econômica. A jornalista Lacy Barca, responsável pela gestão do conhecimento da TV Brasil, lembrou certa vez que, do ponto de vista ético, exige-se do jornalista os mesmos cuidados de correção, fidelidade, imparcialidade. Pode-se escrever, radiodifundir, televisionar ou filmar qualquer informação científica em sua forma mais comum, com a mesma técnica usada para todas as notícias.
Com o passar do tempo, os alunos perceberam que além de informar sobre o que acontece no mundo da ciência e da tecnologia, o programa estava contribuindo para despertar vocações, estimulando a curiosidade de jovens, levando a eles algum conhecimento que pudesse contribuir para sua formação. Os alunos também se deram conta que, com seu trabalho, estavam ajudando a desmistificar a ciência e a figura do cientista, que muitas vezes tem sido sacralizada. Nesse aspecto, não encontraram muitas dificuldades, pois a imprensa escrita, havia anos, estava destinando espaço para a divulgação da ciência e tecnologia. Assim, muitos cientistas, antes um tanto avessos à divulgação de suas pesquisas, e desconfiados do trabalho profissional da imprensa, hoje veem nos jornalistas aliados na prestação de contas à sociedade.
A locução, a edição e a sonorização das matérias eram feitas no estúdio da Rádio MEC. O maior desafio foi elaborar um formato que garantisse, ao mesmo tempo, a comunicabilidade do programa, a clareza e a precisão das informações e o interesse e mobilização do público ouvinte. Como se tratava de um projeto acadêmico, veiculado em emissora oficial, sem qualquer compromisso comercial, foi possível experimentar novos formatos. Mas, sempre a partir de critérios previamente discutidos, muitas vezes com os próprios cientistas. Um exemplo foi o programa sobre Estudos do caos, do qual participou o professor Ildeu de Castro Moreira, professor do Instituto de Física da Universidade Federal do Rio de Janeiro, e militante em defesa da popularização da ciência e da divulgação científica. Para viabilizarmos o programa, fizemos três reuniões com o professor, discutimos o roteiro, a abordagem e a própria trilha sonora.
Palavra e recursos sonoros são elementos que se complementam no rádio, e é neles que reside a força do veículo. Por não oferecer detalhes minuciosos, como a televisão, o rádio estimula o imaginário do ouvinte, levando-o a criar imagens por meio das descrições e dos relatos que ouve. Isso vale também para programas que divulgam ciência, independentemente de seu formato. No caso da série E por falar em ciência, um exemplo é o próprio programa Estudos do caos, em que era preciso levar o ouvinte a relacionar o caos e sistemas caóticos a algo que lhe fosse familiar. Assim, o professor Ildeu foi buscar na natureza uma explicação para comportamentos caóticos.
(...) talvez o exemplo mais claro do sistema caótico seja um rio turbulento. Se a gente joga, por exemplo, duas folhinhas num certo lugar desse rio, elas se separam de maneira muito rápida no tempo. Uma delas pode ficar presa no redemoinho, e a outra pode descer para o mar.Então esse é um exemplo de um sistema que tem esse tipo de comportamento. Um outro exemplo é a previsão do tempo: a atmosfera se comporta de maneira muito complicda. Por isso, é muito difícil prever se vai chover ou fazer sol no fim de semana. Qualquer pequena variação pode mudar o tempo significativamente depois de uma semana. Então, esses são dois exemplos de comportamento caótico na natureza.
Não contando com a imagem de um rio específico, cada ouvinte “viu”, ao ouvir a explicação do professor, um rio que lhe era familiar, e cada um, certamente, desenhou em sua mente um sol e uma chuva particulares.
Também ao explicar o que vem a ser o controle do caos, Ildeu levou ao ouvinte uma imagem por meio de sua descrição.
(...) seria, mais ou menos, como você equilibrar uma vara na ponta do dedo. Quer dizer, é muito difícil, porque é um sistema instável.Se você fica com o dedo parado, a vara cai, mas, se você mexe com o dedo adequadamente, você pode estabilizar a vara e fazer com que ela fique se comportando da maneira como você quer. Então, existe essa possibilidade interessante de se fazer o controle de sistemas caóticos.
Um exemplo bem concreto: o coração. O coração é um sistema que até pouco tempo, se imaginava que saudável era aquele que funcionava sempre com o mesmo ritmo, invariavelmente. Agora, nos últimos anos, as pessoas têm descoberto, a partir de estudo dessa ideia do caos, que um coração saudável tem também capacidade adaptativa, quer dize,r ele muda de ritmo de acordo com as emoções, com o clima, com a temperatura.Então, o coração saudável tem de ter a capacidade adaptativa. Ele tem de reagir a pequenas variações, a pequenos estímulos. E os sistemas caóticos são exatamente isso: são sistemas que dão uma grande resposta sob ação de um pequeno estímulo. Daí a ideia de biólogos e médicos aproveitarem isso no estudo do coração, por exemplo.
A limitação tecnológica exige que a mensagem radiofônica receba um tratamento que a torne inteligível. Para alcançar esse objetivo é preciso, pois, que se estabeleça uma relação de cumplicidade entre entrevistador e entrevistado. E isso vale também, ou, sobretudo, para programas de divulgação de ciência.
Não foi possível avaliar a audiência de nosso programa. A razão é simples: E por falar em ciência era transmitido pela Rádio MEC, mas não tinha uma produção na emissora. Isso inviabilizava um contato mais íntimo entre o ouvinte e os integrantes da equipe. Vez por outra tínhamos notícia de que alguém havia telefonado querendo falar com os responsáveis do programa. Além disso, o programa era gravado, o que impossibilitava a interatividade que propicia exatamente a participação dos ouvintes.
Quando, eventualmente, levávamos ao ar um tema sobre ciência e tecnologia na série Diálogos, que era ao vivo, mediado pelo professor Luiz Alberto Sanz e por mim, podíamos medir o interesse dos ouvintes pelos assuntos tratados em função das perguntas e dos comentários que chegavam pelo telefone. Isso mostra a importância da interatividade no rádio. É nesse momento que entrevistados e ouvintes estabelecem um diálogo. O rádio ao vivo deve ser o objetivo de todos aqueles que pretendem se dedicar à comunicação radiofônica, aproximando o ouvinte de seus interlocutores, transformando-os de objetos da comunicação em sujeitos.
O programa E por falar em ciência foi uma experiência muito importante. Primeiro, porque a universidade é o lugar da reflexão, da análise, da experimentação, da pesquisa. É nela que se forma a massa crítica, e não apenas técnicos especializados em redação jornalística, em tecnologias e equipamentos, ou meros anotadores de declarações e opiniões alheias. Em segundo lugar, porque, participando do projeto, muitos alunos se deram conta de que jornalismo científico não é uma atividade burocrática. Verificaram que, apesar do mercado de trabalho fechado nas editorias de ciência dos grandes jornais, aqueles que experimentaram o jornalismo científico na universidade podem perfeitamente atuar em assessorias de instituições científicas e de pesquisa, funcionando como repórteres, editores, redatores.

Perdendo a sintonia
E por falar em ciência começou com 10 minutos de duração. Pouco tempo depois, a direção da Rádio MEC propôs que fosse ampliado para 15 minutos. Par os alunos, tratava-se de um compromisso ao qual não podiam faltar. Mesmo nas férias, os bolsistas produziam um programa semanal. Falávamos com orgulho do nosso projeto
Mas, como fim das bolsas, começaram os problemas. Não contávamos mais com equipe fixa. Como não havia remuneração, os alunos não encarvam o projeto com seriedade. Talvez achassem que estavam participando de uma atividade do tipo "brincando de fazer rádio". Normalmente, a responsabilidademaior era assumida pelo monitor da cadeira de radiojornalismo, e foi graças aos monitores que conseguimos "levar o barco adiante". Mas, durante o período de férias, os alunos não se mostraram interessados em produzir programas. Recorremos, portanto, a reprises.
Chamo a atenção para esse fato poir ele ilustra como a produtividade está intimamente ligada à remuneração. Ou seja, a bolsa confere caráter profissional ao projeto. Responsablidade, compromisso com os ouvintes e a emissora que nos abriu espaço foram secundarizados. O projeto passou a ser visto pelos alunos como outra matéria qualquer, em que a nota por um trabalho de casa é suficiente. Eis aí uma questão sobre a qual professores e alunos devem refletir.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Lewi, um repórter fotográfico artista















O autor destas fotos é Lewi Moraes. Ele fez 60 anos de idade. Há 30 eu o conheço. Na época, ele era fotógrafo da Folha de São Paulo e eu, repórter da então TV Educativa do Rio de Janeiro. Ficamos amigos, daqueles que não se veem muito, mas que são leais na alegria e na tristeza..., o que, aliás, é muito mais verdadeiro nas grandes amizades do que em muitas promessas feitas em frente a um altar.
Em sua larga trajetória, Lewi fotografou políticos, jogadores de futebol, reis e rainhas, pilotos da Fórmula 1, pessoas simples, sem tetos, cientistas, paisagens, flores e animais silvestres.
Um dia, deixou o jornalismo diário e resolveu ser freelancer. Fez ensaios fotográficos, fotos publicitárias e fotos para divulgar a ciência, mas acabou optando por fotografar a natureza.
Uma vez fiz o seu perfil do qual reproduzo, aqui um trecho, porque é assim que eu vejo, até hoje, o meu amigo.
“Se fotografia é arte, Lewi Moraes é artista. Se fotografia é informação, Lewi é jornalista. Se a fotografia é arte na informação, ou informação com arte, então Lewi é um jornalista-artista.
A explicação é simples: Lewi domina, como poucos, a arte de parar o tempo e a técnica de reter, para sempre, a imagem de um instante.
É isso que ele tem feito nos últimos 30 anos, sempre com muita dedicação, prazer e sensibilidade. Assim é nas fotos jornalísticas, publicitárias ou nos ensaios fotográficos. Filho de seu tempo, Lewi sempre foi, e continua sendo, receptivo às inovações tecnológicas da sua área. Por isso, manuseia com a mesma desenvoltura a velha Nikon F2, que guarda como lembrança, e sua atual câmera eletrônica. Não rejeita o mais moderno equipamento digital, que dispensa o click que tantas vezes ouvi quando trabalhávamos juntos, nas ruas do Rio de Janeiro, registrando fatos dos mais corriqueiros aos mais importantes.
Jamais vou esquecer a foto da multidão que tomou conta do centro do Rio, no comício histórico pelas Diretas-Já, em 1984. Do alto, aquela gente reunida clamando por liberdade formava uma cruz, na esquina da Av. Presidente Vargas com a Av. Rio Branco. A foto de Lewi tornou a cruz visível, revelando todo o peso simbólico daquela manifestação. Foi primeira página da Folha de São Paulo, do dia 10 de abril de 1984.”
Faço agora um convite: visitem o site do Lewi. Lá estão os seus ensaios fotográficos.
http://www.lewimoraes.com/

segunda-feira, 10 de maio de 2010

A necessidade da boa comunicação

O relato a seguir é de uma época em que ainda não havia celular e adquirir telefone exigia paciência – o tempo de espera por uma linha podia chegar a dois anos.
“Volto quinta à noite”, dizia o telegrama do marido para a mulher que o aguardava ansiosa. Ele se encontrava a trabalho no interior de Minas; ela, na casa do casal, no Rio. Quinta à noite ela esperou horas a fio, mas o marido não voltou. “Será que houve algum problema com o carro perguntava a si mesma, já quase chegando às lágrimas? De tanto esperar acabou cochilando no sofá. Na manhã de sexta-feira, às nove horas, o marido chega sorridente. Espanta-se com o aspecto da mulher aflita. Conversa vai, conversa vem, e o equívoco foi esclarecido. O marido escreveu “volto quinta à noite”, querendo dizer que sairia de Minas na quinta à noite e não que chegaria quinta à noite.
Esse breve relato mostra como, muitas vezes, a comunicação é ineficiente apenas por causa de uma simples palavra. Assim é na vida privada, assim é na vida profissional. Por isso, a boa comunicação requer objetividade, clareza e bom manejo da língua.
Ser objetivo não significa ser simplório ou informar pela metade, mas usar as palavras certas para transmitir informação ou expressar uma ideia. Por isso, nunca é demais lembrar que, em geral, há uma palavra para definir uma situação.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Homenagem às mães


“Há homens que lutam um dia e são bons. Há outros que lutam um ano e são melhores. Há os que lutam muitos anos, e são muito bons. Mas há os que lutam toda a vida, esses são os imprescindíveis.” [Bertold Brecht]
Sugiro uma pequena mudança na frase de Bertold Brecht: que a palavra homens seja trocada por seres humanos.
Ficaria, então, assim:
Há seres humanos que lutam um dia e são bons. Há outros que lutam um ano e são melhores. Há os que lutam muitos anos, e são muito bons. Mas há os que lutam toda a vida, esses são imprescindíveis.
Dentre esses seres humanos há inúmeras mulheres, mães. A elas presto minha homenagem neste dia 09 de maio de 2010. Em especial à Justine (foto), hoje com 89 anos de idade, mulher batalhadora, minha querida mãe, imprescindível.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Ciência, rádio e TV



A mais útil das ciências será aquela cujo
fruto seja mais comunicável.
Leonardo da Vinci
Tratado de Pintura

Fatos jornalísticos relacionados a atividades científicas já encontram espaço no rádio e na TV. Temos vários exemplos: a reconstituição do crânio de Luzia, a brasileira pré-histórica; clonagem; a utilização de células tronco para fins terapêuticos; a discussão em torno dos transgênicos; a descoberta de uma nova estrela ou de um crânio de crocodilo que viveu no Brasil há 135 milhões de anos.
Nesse sentido, temos avançado bastante, embora ainda predominem na nossa imprensa assuntos internacionais ou aqueles considerados sensacionalistas, sempre valorizando o exótico ou o original. Nesses casos, o cientista geralmente é mostrado como uma criatura especial, ou é absolutamente esquecido.
Mas o público brasileiro ainda é escassamente informado sobre o mundo da ciência, desconhecendo as atividades de nossos pesquisadores e das instituições em que desenvolvem suas atividade. Esse público ignora o processo de construção do conhecimento, nos meios universitários e nas demais instituições de pesquisa. É aí que entra em cena a divulgação da ciência, que pode e deve ocupar espaço nobre no rádio, e na televisão, também. No Brasil, a mídia, em especial o rádio e a TV, assume importância na formação, não só de opinião, mas também de hábitos, costumes, comportamentos, a ponto de falarmos hoje na chamada sociedade midiática.
Como em nosso país a pobreza impossibilita, não apenas o acesso a bens materiais, mas também à cultura e ao saber, o rádio e a TV vêm se afirmando, cada vez mais, como instrumentos transmissores de informação. E, como a informação e a transmissão do conhecimento são partes de um processo educativo, defendemos o princípio de que jornalistas, radialistas, produtores de TV, pedagogos e professores devem se aliar em um projeto que contemple a formação continuada do cidadão. Só uma pessoa bem informada é capaz de exercer conscientemente a sua cidadania. Nesse sentido, é bom lembrar que rádio e televisão são concessões públicas e, assim sendo, devem assumir compromissos com a coisa pública. E, a informação, no seu sentido mais amplo, é parte desse compromisso. É bom lembrar, também, que o artigo 5o da Constituição Brasileira assegura a todos o acesso à informação. Num país como o nosso, em que predomina a pouca informação, que meios são mais adequados para levar informação a milhões de pessoas senão o rádio e a televisão? E, dentre ambos, o rádio ainda é o mais popular meio de comunicação e de maior alcance público. Atinge a todos, sem distinção de escolaridade, classe social ou condição econômica. Fala a todos individualmente, acompanha o ouvinte no carro, na cozinha, na sala, na praia ou no local de trabalho.

Televisão X rádio
A produção de programas de divulgação científica em televisão é cara. Requer tempo de preparação. Exige apuração cuidadosa da matéria, consultoria, maior apuro e rigor dos apoios visuais, ainda mais hoje em dia, com o público cada vez mais acostumado a ver recursos visuais sofisticados. Fazer um programa de divulgação científica sem utilizar recursos visuais e sonoros, limitado a uma conversa em estúdio, é até fácil. Mas não há público que aguente.
Difícil é criar e desenvolver formatos que sejam dinâmicos, leves, instigantes, que despertem a curiosidade do telespectador.
A produção de programas de divulgação científica em rádio é bem mais barata, porque dispensa a imagem. Mas o rádio trabalha com o imaginário das pessoas, para compensar a ausência dos recursos visuais. Mas, para que o ouvinte possa “visualizar” o que está sendo dito a ele, é preciso igualmente encontrar formatos que tornem o programa atraente. Afinal, o cérebro traduz sons e sentimentos. A linguagem radiofônica é, na sua essência, uma linguagem que fala aos sentimentos, aos sentidos: afetos, emoções, dor, ternura, esperança, angústia. Se um programa de rádio faz rir ou chorar, está num bom caminho. Se provoca fúria (não pela qualidade do programa, mas pelo conteúdo que está transmitindo) também vale. Mas se não move nem comove, se deixa o ouvido frio, não é radiofônico. Falar pelo rádio, é emocionar. Caso contrário, a mensagem não chega, não causa impacto.
Eu gostaria de propor um exercício, uma experiência. Assistam a um filme ou a um programa de televisão e tirem o seu volume. A fotografia pode ser boa, impactante, a atuação excelente. Mas a falta de som torna a transmissão fria. Mas, se fizermos ao contrário: vamos apagar a imagem e deixar apenas o som. Vamos ouvir os diálogos, a música, o ambiente. Mesmo sem a imagem a nossa recepção será muito mais emotiva. Essa é a força do rádio, sua grande característica. Além do mais, ele fala a cada um em particular, como um grande amigo. Foi a contribuição que o transistor trouxe. De veículo coletivizante, passou a veículo individualizante. Deixou a sala, onde falava para a família, e passou a falar a todos individualmente. Acompanha o ouvinte no carro, na cozinha, no quarto, na praia ou no local de trabalho. Atinge a todos sem distinção de escolaridade, classe social ou condição econômica. No Brasil, é sem dúvida o mais popular meio de comunicação e o de maior alcance público.

E por falar em ciência: uma experiência radiofônica
Em 1990, no Departamento de Comunicação da Universidade Federal Fluminense, propus aos meus alunos um projeto sistemático de produção de programas radiofônicos no âmbito do jornalismo científico. Eu dava aulas de jornalismo científico e rádiojornalismo. Juntei alunos das duas turmas e começamos a produzir programas. Durante dois anos, o trabalho foi fácil. Com a ajuda do então professor Luiz Alberto Sanz, conseguimos espaço na Rádio MEC, fruto de um convênio assinado entre a emissora e a UFF. Decisiva também foi a colaboração dos professores Antônio Serra e José Maurício Alvarez. Cinco dos nossos alunos receberam bolsa de iniciação científica da FAPERJ. Mas, todos que participavam, faziam pesquisa, apuração, produção, reportagem, redação e edição das matérias, além da sonorização, que sempre mereceu um tratamento bastante criterioso. Eu acompanhava e orientava todas as etapas.
Optamos pelo formato radiodocumentário, trabalhando com temas ligados aos mais diversos setores das ciências, desde a ciência da saúde até as ciências humanas, passando pela física, engenharia, química, biologia e tantas outras que têm contribuído para o desenvolvimento científico e tecnológico do país. A lista era imensa e prova que, ao contrário dos que querem desmantelar a universidade brasileira, acusando-a de inoperante e improdutiva, é dela que saem profissionais criativos e competentes, dignos do maior respeito e merecedores do reconhecimento internacional. Não queríamos apenas mostrar o que os cientistas fazem. Queríamos, também, mostrar que a ciência faz parte do nosso dia-a-dia e é uma aliada para solução de problemas de uma sociedade. Embora, seus resultados nem sempre possam trazer benefícios a todos.

O respeito às culturas regionais e locais
Num país de dimensões como o Brasil, com características regionais muito marcantes e variadas, a ciência tem, no rádio, um grande aliado. As emissoras locais e regionais encontram um vasto campo a ser explorado, principalmente nas áreas da saúde, da nutrição, da agricultura, do meio-ambiente. Nas universidades locais, os programas de pesquisa científica podem servir de pauta para programas de rádio. Além de contribuir para divulgar o que está sendo feito pelos nossos pesquisadores, esses programas estariam contribuindo para diminuir a distância cultural imposta à maioria da população brasileira, relegada à exclusão do saber por uma elite que se outorgou o direito de deter o saber.

O Estado e as rádios públicas
Embora a esmagadora maioria das emissoras de rádio seja explorada pela iniciativa privada, por concessão do Estado, há no Brasil, as chamadas emissoras públicas, como as rádios Nacional e MEC, no Rio de Janeiro. Não se trata de emissoras governamentais, nem estatais, embora estejam ligadas ao Estado, que não muda com a troca de governo e nem de regime; ao Estado que continua. Historicamente, também cabe ao Estado, no Brasil, o fomento da pesquisa científica, de maneira geral, e do desenvolvimento tecnológico em determinadas áreas, especialmente as consideradas estratégicas. Mas pouco tem sido feito no sentido de se utilizar essas e outras emissoras como aliadas na divulgação do conhecimento científico; não como veículos de propaganda, mas de divulgação de informações. A sociedade sendo a grande mantenedora desse sistema, por intermédio dos impostos que paga, deve ter o direito de conhecer os resultados de seus investimentos.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Rádio: um pouco de história da pioneira (2)


No ar, os revolucionários de 1930
No dia 30 de outubro Getúlio Vargas chega ao Rio para assumir o governo, depois da vitória do movimento revolucionário que derrubou a Velha República. Na Avenida Rio Branco, no centro do Rio, a população carioca via curiosa, os cavalos dos revolucionários gaúchos amarrados no obelisco. Vargas fecha o Congresso e passa a governar com base em decretos-leis. Dois anos depois, São Paulo se rebela contra o poder central e exige a constitucionalização do país. É deflagrada uma guerra civil que encontra no rádio um grande aliado. Radialistas, como César Ladeira, na Rádio Record e Celso Guimarães, na Rádio Cruzeiro do Sul, usam os microfones para incentivar a presença do povo nos comícios e atrair voluntários para a frente de combate. A ”guerra paulista” durou quase três meses. Terminou com a vitória dos governistas. Já em 1933, o governo provisório decidiu constitucionalizar o país, realizando, em maio, eleições para a Assembléia Nacional Constituinte, que promulgou a Constituição em 14 de julho de 1934. Foi a partir da chamada Revolução de 1930 que o rádio ganhou impulso, tendo-se desenvolvido com a ampliação das relações capitalistas, especialmente a publicidade, que passou a ser uma das grandes aliadas do processo produtivo manipulando os desejos inconscientes da população. Em março de 1932, Getúlio Vargas assinara um decreto autorizando a veiculação de propaganda comercial pelas rádios, abrindo caminho para patrocinadores, os anúncios e jingles, acirrando a concorrência entre as emissoras e a briga pela audiência. Por isso, disputavam também os talentos artísticos, que passaram a receber cachês. Com o fim da “guerra paulista”, os locutores revolucionários foram contratados por duas das mais importantes rádios do Rio: Celso Guimarães, pela Nacional e César Ladeira, pela Mayrink Veiga, onde passou a empregar processos inéditos na programação. Deu novas dimensões ao rádioteatro, criando o grande e o pequeno teatro, além de ter dedicado horários específicos aos artistas de seu elenco, e deu a cada um deles um adjetivo consagrador, como o de "Garota Notável", para Carmem Miranda. Despertou o gosto dos ouvintes para a crônica, o editorial e o comentário, além de ter dividido a programação como quem pagina um jornal, situando cada especialidade em horários pré-estabelecidos. A presença de César Ladeira foi tão marcante, que muitos locutores tentaram imitá-lo. Criou um estilo de linguagem, ao perceber que a voz humana era o suporte para a comunicação objetiva. Embora fossem utilizados vários recursos acústicos, dava ênfase a determinados detalhes, impostando a voz e recorrendo a uma série de criações. O radialista Saint-Clair Lopes contou que os que se aproximassem ao estilo de César Ladeira, sentiam-se profissionais realizados. Saint-Clair Lopes foi advogado, jornalista, locutor, radioator, redator e diretor de programas, além de professor de Radiojornalismo na PUC-RJ. Foi também diretor do Departamento Jurídico da Rádio Nacional, da Divisão de Assuntos Legais da ABERT (Associação Brasileira de Rádio e Televisão) e autor do livro Nas ondas do rádio. Anos mais tarde, César Ladeira integrou a equipe da Rádio Nacional, que, a partir de 1940, torna-se líder de audiência do rádio brasileiro. A essa altura, os aparelhos já haviam barateado o que permitiu ao rádio assumir o papel de mais importante veículo de comunicação da época.

A resistência da pioneira
Enquanto as emissoras, como a Mayrink Veiga e a Nacional disputavam patrocinadores, desde a década de 1930, Roquette-Pinto continuava não admitindo propaganda em sua emissora; nem comercial, nem política. A Rádio Sociedade insistia em se manter apenas com a contribuição dos “sócios”, não tendo recursos para modernizar seu equipamento e ampliar a potência para enfrentar a concorrência das emissoras comerciais. Para tentar salvar a Rádio Sociedade, Roquette-Pinto decidiu doar a emissora ao então Ministério da Educação e Saúde, mas com uma condição: a de que a rádio permanecesse fiel ao seu lema cultural e educativo, sem qualquer vinculação comercial, política ou religiosa. Já transcorria o ano de 1936. Mais uma vez, 7 de setembro passa a ser um dia importante para a radiodifusão brasileira. A data foi escolhida para a cerimônia oficial de doação da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro ao Ministério. Nascia assim, a atual Rádio MEC. Beatriz Roquette-Pinto Bojunga sempre acompanhou os passos do pai Roquette Pinto. E, como não poderia deixar de ser, ela também estava a seu lado na solenidade de doação da emissora, com tudo o que ela tinha em matéria de móveis e máquinas. Numa entrevista que deu ao no 25 do jornal O Amigo Ouvinte, Beatriz disse que foi ela, juntamente com Carlos Drummond de Andrade e Abgar Renaudt, na época oficiais de gabinete do Ministro Capanema, quem pôs os selos nos móveis. Nesse mesmo dia, diz ela, o pai fez um discurso que terminava assim: “Entrego esta Rádio, com a mesma emoção com que se casa uma filha”. “Depois disso”, lembra Beatriz, “ele veio chorar comigo num corredorzinho que tinha na Rua da Carioca”. A exemplo de Roquette-Pinto, Beatriz também tinha a convicção de que o rádio seria o instrumento capaz de tirar o país da penúria cultural que vivia. Acreditava e agia, tal como seu pai. Aliás, crer e agir foi, na opinião de Beatriz, a grande herança deixada por seu pai. Já aos 20 anos ela produzia e apresentava, na Rádio MEC, um programa infantil, que, de certa forma, abriu caminho para o gênero em outras emissoras de rádio, como o Tapete mágico, de Ilka Labarte, na Nacional, ou A hora do guri, da Rádio Tupi. Depois da morte de Roquette-Pinto, em 1954, Beatriz agiu feito guerreira, quando uma lei determinou que a rádio passaria para o Senado e a Câmara. Obstinada, sem medir esforços, a filha de Roquete Pinto foi à luta e conseguiu um Mandato de Segurança que manteve a rádio vinculada ao Ministério da Educação. Hoje, a emissora faz parte da Empresa Brasileira de Comunicação, criada para implantar e gerir os canais públicos de televisão e de rádio. Além da Rádio MEC, outras sete emissoras de rádio fazem parte da EBC e três canais de televisão (TV Brasil, TV Brasil, Canal Integración e NBR). Ela também é responsável pela produção da Voz do Brasil, além de prestar outros serviços.

Abrindo parênteses
Nos anos 40 Getúlio Vargas já havia se consolidado no poder, depois do Golpe de 1937, quando outorgou a Constituição. Um detalhe importante: na noite do dia 10 de novembro de 1937, Getúlio Vargas anunciou, pelo rádio, a Constituição de 1937, que instituiu o Estado Novo, escrita pelo político mineiro Francisco Campos. Na época, o rádio já se firmara como veículo a ocupar lugar hegemônico, especialmente a Rádio Nacional, que foi preparada para esta hegemonia. Fundada em 12 de setembro de 1936, a Nacional acabou tornando-se um marco do rádio brasileiro. Pertencia à empresa A Noite, mas em 1940 o governo a encampou para ser um instrumento de afirmação do regime. A PRE-8 passou então às Empresas Incorporadas à União. Hoje, a emissora é também vinculada à Empresa Brasileira de Comunicação. No plano interno, a fundação da Rádio Nacional coincide com o esgotamento da fase pioneira do rádio, em que se pretendeu usá-lo como instrumento para educar o povo, no sentido escolar da palavra. Esse, pelo menos, era o sonho de Roquette-Pinto, que acreditava poder acabar com o analfabetismo no país (é dele a frase: “o cinema e o rádio no Brasil serão a escola dos que não tiveram escola”). No plano internacional, a Rádio Nacional, que logo se transformou num instrumento do Estado Novo, surgia quando o nazismo utilizava o rádio como principal veículo de propaganda e controle social. Isto não significa que o rádio do Estado Novo, no Brasil, buscou no rádio alemão da época um modelo de programação. O modelo, especialmente da Rádio Nacional, estava mais para o norte-americano. Quem assistiu ao filme A Era do Rádio, de Woody Allen, pode avaliar o que foi a programação da Rádio Nacional. O radialista Lourival Marques, ex-diretor da Rádio Nacional, disse-me que diversos programas da emissora foram inspirados (para não dizer copiados) em rádios americanas (exceção feita às novelas, que eram de origem cubana). A ligação do rádio da época ao rádio norte-americano talvez encontre uma explicação na vitoriosa manipulação política da ideologia do pan-americanismo, no âmbito da política da boa vizinhança que teve por conseqüência a intensificação das relações culturais entre os EUA e o Brasil. O que importa, no caso, é que não foi difícil para a Rádio Nacional, com sua ideologia populista, ajustar-se ao discurso do poder. Aliás, a ideologia populista predominava, de maneira geral, no rádio da época. Essa manipulação traduzia-se na criação do Zé Carioca, por Walt Disney, em seu filme Alô, amigos e no incentivo à carreira de Carmen Miranda e do Bando da Lua, em Hollywood. Ari Barroso é contratado para escrever música para o cinema e Orson Welles vem ao Rio para rodar o sonho brasileiro no inacabado filme It!s all true. Em troca, o rádio brasileiro passa a assimilar técnicas norte-americanas. Primeiro, na linguagem publicitária e na comercialização de programas, Depois, no noticiário radiofônico, com o surgimento, na Rádio Nacional, do Repórter Esso. A primeira transmissão data de agosto de 1941. O rádiojornal, patrocinado pela Standard Oil, era produzido pela McCann-Erickson e tinha como fonte de notícias a United Press International (UPI). Transmitir os feitos dos aliados no conflito mundial, possivelmente, era uma forma de justificar a entrada do Brasil na guerra. A Rádio Nacional, sem dúvida, foi a maior experiência radiofônica já feita no Brasil. Ocupou lugar equivalente ao da TV Globo de hoje, com uma diferença. A TV Globo de hoje é acima de tudo um instrumento ideológico “classemedista”, com tudo que isto pode representar: urbanização, modernização, tecnocracia, cosmopolitismo; projeto de exclusão dos que vivem à margem do processo produtivo. Já o projeto da Rádio Nacional era de inclusão, que pode, por hipótese, ser explicado pelo conceito de integração nacional pretendida pelo Estado Novo, no qual se pode identificar a busca de uma “identidade nacional”. Nesse espírito, os trabalhadores recém-incorporados ao meio urbano eram tema, por exemplo, da série Tancredo e Tancrado. Nesse caso, o chiste inocente pode ser entendido como uma forma de aceitação do próximo, conforme aponta Freud. A estratégia de minimizar as contradições, não só de classes e entre regiões, mas também entre jovens e velhos, atendia eficazmente ao populismo. Estimulava a “consciência inclusiva”, sem deixar de atender ao consumismo, que a difusão da economia de mercado estimulava. Uma questão importante, no entanto, dever ser considerada quando se fala do rádio no Estado Novo: a censura, que implica instituir normas de controle social. No Brasil, a instituição dessas normas data de 1930, embora a censura tenha sido mais rigorosa no período de 1937 a 1945. Era exercida pela Seção de Rádio do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), criado em 1939, responsável também pela produção de A hora do Brasil, programa que ia ao ar em cadeia nacional, com transmissão obrigatória, já antes de 1937, mas que foi ampliado para duas horas de duração. Essa prática mostra a consciência que o Estado tinha da importância do rádio. Mas, apesar de a Rádio Nacional pertencer à União, não se tem notícias de que o governo de Vargas fizesse explicitamente uso regular da Rádio Nacional para fins de propaganda. Sempre usou transmissões em cadeia para todo país. Até por isso, pode-se concluir que a Rádio Nacional não era uma rádio de Governo, mas de Estado. Tanto que ela não saiu do ar com a queda de Getúlio Vargas. Nem A hora do Brasil . Seu nome foi mudado para A voz do Brasil passando a ter uma hora de duração. O caso da Rádio Nacional e da Voz do Brasil, está ligado à questão da durabilidade do Estado. Do Estado que não muda com a mudança de governo e nem de regime. Do Estado que continua.

De volta à pioneira
A Rádio MEC também não escapou da censura imposta pelo DIP. Nenhuma emissora foi poupada. Todas, sem exceção, tinham seus programas controlados pelo órgão. A censura era, inclusive, justificada pelos intelectuais do poder e tinha seu movimento divulgado pela Revista de Cultura Política. Só em janeiro de 1943, por exemplo, foram censurados 1312 programas radiofônicos. Em fevereiro do mesmo ano, foram censurados, pela Seção de Rádio do DIP, um total de 1.246 programas. Chegou a proibir a execução de músicas de Tschaikowski, Stravisnki e outros compositores russos, porque “russo era comunista e comunista, não pode”. Assim foi durante o Estado Novo e assim voltou a ser depois do Golpe de 1964, que derrubou o governo de João Goulart e impôs a ditadura militar que durou até o final do governo de João Figueiredo (1985). Com a ditadura vieram as punições extralegais, como cassações, demissões e expulsões. Uma das atingidas pelo arbítrio foi a ex-diretora da Rádio MEC, Maria Yedda Linhares, catedrática de História Moderna e Contemporânea da Universidade do Brasil, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro, da qual é hoje professora emérita. Sua sala foi tomada de assalto pelo também professor de história Eremildo Luiz Viana, na época, diretor da Faculdade Nacional de Filosofia. Esse fato foi amplamente noticiado e comentado por grandes jornalistas como Carlos Heitor Cony, Mocyr Werneck de Castro, Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta. Denunciada por Eremildo Vianna, foi cassada pelo AI-5, sem acusações formais, apenas por acreditar que seria possível acabar com as oligarquias e pôr em prática as reformas necessárias capazes de dar acesso à terra, ao trabalho, à educação e à cultura. Seus ideais e sua breve passagem, de nove meses, pela Rádio MEC, renderam-lhe oito inquéritos policiais militares, três prisões, aposentadoria pelo AI-5 e exílio de seis anos, na França. Lá, o governo francês a nomeou professora titular visitante (professeus associé).
Uma vez, líder de audiência
1963 marca a volta do presidencialismo ao País, após breve fase de regime parlamentarista, instituído por Emenda Constitucional aprovada pelo Congresso em novembro de 1961, como fórmula de garantir a posse do vice-presidente João Goulart, após a renúncia de Jânio Quadros. 1963 assiste, também, a diversas manifestações de protesto e a sucessivas greves de diferentes categorias profissionais. Em novembro daquele ano, radialistas e profissionais de televisão do Rio cruzaram os braços. No dia 22, quando o presidente norte-americano John Kennedy foi assassinado em Dallas, no Texas, apenas a Rádio MEC estava no ar e pôde comprovar a eficiência de sua equipe. Ligados apenas a um terminal de teletipo da France Press, os jornalistas da rádio MEC transmitiram ao longo de 24 horas consecutivas informações e comentários, seguindo um novo estilo de jornalismo, mais didático, despojado de jargões, explicativo e, de fato, informativo. A receita era simples: notícias claras, bem apuradas e bem redigidas. Já não havia mais espaço para um noticiário que se limitava a repetir os outros ou a ler telegramas de agências de notícias. Naquele dia 22 de novembro de 1963, a Rádio MEC conquistou 100% de audiência, episódio que a professora Maria Yedda Linhares, na época diretora da rádio, guarda na memória com orgulho. O episódio é um exemplo de como determinação e dedicação podem suprir a falta de recursos materiais.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Rádio: um pouco de história da pioneira (1)


Você pode ouvir rádio em casa, no trabalho, no carro, almoçando, jantando, tomando banho, andando a pé, indo ao banheiro, estudando, praticando esporte, fazendo amor.
Será que você pode ver TV em todos esses momentos? Será que você pode ler jornal em todos esses momentos?
Argumento publicitário da Rede Riograndense de Emissoras, em 1976.


Em 1922 o País assistia à Semana de Arte Moderna, à Revolta dos Tenentes e à fundação do Partido Comunista. Eram sintomas de anseio de mudanças no Brasil, que, na época, ainda se encontrava sob o regime da Velha República oligárquica. Os brasileiros viviam então (de 1922 a 1926) sob estado de sítio imposto por Artur Bernardes, tentando evitar a formação de uma nova oposição.
As indústrias brasileiras prosperavam. A explicação está na Primeira Guerra Mundial que nos impediu importar artigos manufaturados. Assim, o Brasil passou a produzi-los, criando novas indústrias e aumentando a capacidade de produção das já existentes. Com o crescimento industrial veio o crescimento do operariado e de suas reivindicações salariais, redução da jornada de trabalho e assistência social. O grande número de imigrantes europeus entre os operários permitiu a rápida organização de partidos políticos operários, de inspiração anarquista, socialista e comunista.
Na época, o Rio de Janeiro, então capital da República, tinha cerca de um milhão de habitantes. A cidade se expandia tanto para a zona sul como para os subúrbios. O centro, desde as reformas do início do século, deixava de ser área de ocupação popular. Os cortiços davam lugar ao comércio e à pequena indústria. O centro começava a ser cortado por enormes avenidas, a exemplo da Avenida Central, hoje Rio Branco. A Rua do Ouvidor, que continuava estreita como antes, era a grande atração para as elites que, nas lojas e livrarias chiques, adquiriam as últimas novidades. Pelas ruas do Rio já circulavam automóveis, que dividiam as vias públicas com os bondes. O velho morro do Castelo foi parcialmente posto abaixo. A justificativa do desmonte foi a necessidade de saneamento da cidade. Sanitaristas argumentavam que o morro impedia a ventilação e era responsável por enchentes no Centro. Em seu lugar deveria surgir uma planície civilizada.
Foi essa planície que serviu de cenário à primeira grande exposição internacional do pós-guerra em comemoração ao Centenário da nossa Independência. O Brasil mostraria ao mundo um novo país e o mundo mostraria ao Brasil as últimas novidades no campo do desenvolvimento técnico.
No pavilhão dos Estados Unidos, a Westinghouse, a Western Electric Company e a Rio de Janeiro and São Paulo Telephone Company instalaram duas estações de 500 watts, com transmissores montados no alto do Corcovado e na Praia Vermelha. Era o rádio se apresentando no Brasil. Sua primeira transmissão foi o discurso do presidente Epitácio Pessoa inaugurando a exposição tendo a seu lado, o Rei Alberto da Bélgica. Para a ocasião, 80 receptores haviam sido especialmente importados para que uma parcela da elite carioca pudesse ouvir em casa o discurso. No local da exposição, foram instalados alguns alto-falantes, com o mesmo fim. A transmissão também pode ser ouvida em Niterói, Petrópolis e São Paulo. Naquela mesma noite, os visitantes da exposição tiveram uma surpresa: ouviram a ópera O guarany, de Carlos Gomes, que estava sendo encenada no Teatro Municipal. Apesar do grande impacto dessa demonstração pública, as transmissões foram encerradas alguns dias depois. Detalhes dessa primeira experiência radiofônica no Brasil estão no livro Bastidores do rádio, de Renato Murce, que durante mais de 50 anos atuou no rádio brasileiro. Ele estava lá na exposição, assistindo a tudo naquele 7 de setembro de 1922.
A Westinghouse acabou desmontando a estação do Corcovado. A Western manteve a sua na Praia Vermelha, esperando que o governo brasileiro fosse comprá-la. E comprou; só que a entregou aos Correios onde passou a ser operada como telégrafo.
Um ano depois...
20 de abril de 1923. Na sala de física da Escola Politécnia, no Largo São Francisco, onde hoje funciona o Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro, em plena reunião da Academia Brasileira de Ciências, o antropólogo e educador Edgar Roquette-Pinto, Henrique Morize e vários membros da Academia fundaram a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, emissora de cunho educativo, “com fins científicos e sociais”, como queria o seu fundador. A primeira transmissão da emissora, ainda experimental, se realizou a 1o de maio, com equipamento emprestado da Praia Vermelha. Roquette-Pinto disse na ocasião: “a partir de agora, todos os lares espalhados pelo imenso território do Brasil receberão livremente o conforto moral da ciência e da arte pelo milagre das ondas misteriosas que transportam, silenciosamente, no espaço, as harmonias”. Mas ainda havia um obstáculo a ser enfrentado: a lei que proibia a atividade radiofônica. Ela fora promulgada ao final da Primeira Grande Guerra, porque se temia que pelas ondas do rádio os segredos militares brasileiros poderiam ser levados para as potências estrangeiras.
Na época, a prática do radioamadorismo já existia no País, mas quem quisesse possuir um receptor em casa, precisava de uma autorização especial dos Correios e Telégrafos. Quem ouvisse aparelhos desautorizados corria o risco de ser preso. Com muita habilidade, Roquette-Pinto tinha indicado para presidente de honra da Rádio Sociedade o próprio ministro da Viação e Obras Públicas, Francisco Sá. Rendendo-se às pressões dos acadêmicos e ao argumento de Roquette de que o rádio no Brasil serviria para difundir educação, Francisco Sá revogou a lei no dia 11 de maio. Estava aberto o caminho para o livre exercício da radiodifusão. No dia 19, a Rádio Sociedade mais uma vez entrou no ar com o equipamento emprestado dos Correios. A transmissão teve início com a leitura, por Edgard Sussekind de Mendonça, do soneto O raio, de autoria de Roquette-Pinto. Em artigo publicado na revista especial dos 60 anos da Rádio MEC, intitulado O homem multidão, o escritor Ruy Castro, lembra que se trata de um soneto simbólico: o raio viaja pelo espaço e vai cair sabe-se onde – como o rádio. Depois, Heloisa Alberto Torres, leu um conto infantil de Monteiro Lobato e, em seguida Francisco Venâncio Filho leu uma página de Os sertões.
Entusiasmado com o resultado da novidade que ajudara a fundar, M.B. Astrada, um dos sócios da Rádio Sociedade, doou um equipamento para dar continuidade às atividades da emissora. Era uma estação pequena de 10 watts, com alcance restrito ao centro da cidade e arredores.
Três meses depois, o governo federal autorizou, oficialmente, o início das transmissões radiofônicas no Brasil, desde que “para fins educativos”. A Rádio Sociedade recebeu permissão para fazer uma hipoteca do material emissor no Banco do Brasil para instalar a antena e cobrir as primeiras despesas. Com isso, adquiriu uma estação de um quilowatt, fornecida pela Marconi, que permitia ultrapassar os limites do então Distrito Federal.

Cientistas: os primeiros radialistas brasileiros
Oficialmente, a Rádio Sociedade entrou no ar no dia 7 de setembro de 1923, um ano depois da inauguração da Exposição Centenária. Começou funcionando no pavilhão doado pela Tchecoslováquia, na Rua Santa Luzia, em frente à Santa Casa de Misericórdia, mudando em 1925 para a Rua da Carioca, 45. Sua programação, a princípio era uma extensão da Academia Brasileira de Ciências, Os acadêmicos produziam, escreviam e apresentavam os programas. Assim, pode-se dizer que os cientistas foram os primeiros radialistas brasileiros, ainda que amadores. Roquette-Pinto, por exemplo, apresentava o Jornal da Manhã. Lia e comentava notícias que ele selecionava nos jornais. Outros tocavam discos de suas coleções particulares. Falavam dos compositores, músicos e cantores. Havia também os que usavam o microfone para dar palestras e cursos, de acordo com suas especialidades. A Rádio Sociedade do Rio de Janeiro atendia, assim, aos anseios daquele pequeno grupo de cientistas, que fundou a Academia e que defendia a difusão ampla da ciência no Brasil, como relata a jornalista Luisa Massarani, em sua dissertação de Mestrado, defendida no IBICT-ECO/UFRJ, no Rio de Janeiro, em janeiro de 1998, intitulada A divulgação científica no Rio de Janeiro: algumas reflexões sobre a década de 20. Por ser capital da República, o Rio de Janeiro recebia inúmeras personalidades das áreas cultural e científica, que incluíam em seus programas uma visita às instalações da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro. Na lista dos visitantes ilustres da emissora, figura Albert Einstein, que, em 1925, esteve no Rio.
Não demorou muito para que novas rádios surgissem em todo o país. Só no Rio de Janeiro, destacam-se, entre as mais importantes: Mayrink Veiga, Guanabara, Jornal do Brasil, Tupi e Nacional.

terça-feira, 23 de março de 2010

Páscoa

Faltam poucos dias para a celebração da páscoa e, de repente, me vem à memória o dia 6 de abril de 1998. Eu trabalhava na Multirio como repórter, roteirista e editora do programa Cidade e Educação. Em pauta, Páscoa: símbolo da renovação. No estúdio, a apresentadora Vera Barroso, sempre muito competente e charmosa, tinha como convidados o professor Francisco José Silva Gomes, doutor em História Medieval e da Igreja, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a Dra. Maria Clara Lucchetti Bingemer, professora de teologia da PUC do Rio de Janeiro e o rabino Nilton Bonder, da sinagoga da Barra da Tijuca, também no Rio de Janeiro.
Mais do que um programa de televisão, aquele bate-papo diante das câmeras revelou-se uma aula de cultura religiosa ou um encontro de religiões.
Certamente, em meio à correria dos consumidores, preocupados em comprar ovos e coelhinhos de chocolate para familiares e amigos, poucos se lembrariam do verdadeiro significado da páscoa. Assistindo àquele programa, quanta informação os telespectadores estavam recebendo a respeito de culturas diferentes e, no entanto, tão próximas, uma – a cristã – sendo herdeira da outra – a judaica. Naquele programa, talvez, muitas pessoas tenham sido lembradas de que
tanto para os cristãos quanto para os judeus, páscoa significa renascimento.
No cristianismo, o renascimento se dá com a ressurreição de Cristo, significando o novo, a vida e a libertação.
No judaismo, a páscoa comemora uma libertação em particular: a saída do povo judeu do Egito, atravessando o Mar Vermelho e deixando para trás 210 anos de escravidão. Até hoje, na cultura judaica, essa libertação é comemorada com o pessach, que significa passagem.
Para os cristão, a páscoa também celebra uma passagem: a de Cristo, pela morte, atingindo a vida que nunca morre.
A páscoa judaica e a páscoa cristã se realizam em datas próximas. Algumas vezes, são até coincidentes e a razão é simples: a última ceia de Jesus Cristo com os apóstolos, na quinta-feira, foi exatamente a ceia em comemoração ao pessach.
Tanto no judaismo, quanto no cristianismo, a páscoa é uma festa móvel. A páscoa judaica é comemorada durante oito dias e ocorre sempre na primeira noite de lua cheia da primavera no hemisfério norte.
Já os cristãos comemoram a páscoa no primeiro domingo após a primeira noite de lua cheia da primavera no hemisfério norte.
Enquanto o pessach faz parte da cultura judaica há 3.412 anos, a data que comemora a páscoa cristã foi fixada durante o Concílio de Nicéa, no ano 325 d.C., no reinado do imperador romano Constantino I, o primeiro a aderir ao cristianismo.
A páscoa cristã também incorporou símbolos de uma festa pagã comemorada na Europa: o festival de Ostera, em comemoração à passagem do inverno para a primavera, na esperança de boa colheita depois do rigoroso inverno europeu que dificultava a produção de alimentos.
Ostera, em alemão arcaico (Ostern em alemão atual) é a deusa da primavera dos anglo-saxãos(Easter, em inglês). Seu nome quer dizer Páscoa. Ela é representada segurando um ovo na mão direita e observando um coelho, símbolo da fertilidade, pulando ao seu redor. Ostera e o ovo que carrega são símbolos da chegada de uma nova vida, da renovação periódica da natureza e, por isso mesmo, também indicam potência, fertilidade e geração. Durante os festejos de Ostera, os ovos eram pintados com símbolos mágicos, enterrados ou lançados ao fogo como oferta aos deuses. É o ovo cósmico da vida, a fertilidade da mãe Terra.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Os herdeiros da terra

Acabo de ler Um certo verão na Sicília, de Marlene de Blasi, com tradução de Paulo Afonso (como são importantes os tradutores para o sucesso de uma obra), editado, em 2009, pela Objetiva.
Trata-se de um relato sobre o amor e uma comunidade nas montanhas sicilianas, que, ainda no século XXI, mantém tradições muito antigas.
A leitura desse livro lembrou-me a comunidade de Furnas dos Dionísios, ao pé da Serra de Maracaju, no município de Jaraguari, a 45 km de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul.
Foi em 1996, quando, a convite de Maria Gessy (excelente roteirista), então trabalhando da TV Educativa do Mato Grosso do Sul, ministrei um curso de roteiros para TV. O trabalho final dos alunos foi a reportagem Herdeiros da terra, sobre aquela comunidade. Foi ao ar na própria emissora.
Como professora da turma, acompanhei os alunos até Furnas dos Dionísios, fundada, segundo alguns registros, em 1901 e, segundo outros, em 1890, por Dionísio Antonio Vieira. Tem 900 hectares e abrigava, em 1996, 250 descendentes de seu fundador. Atualmente, vivem ali 92 famílias. Posto de saúde, energia elétrica e telefone só chegaram lá em 1991. O ensino básico passou a ser regular em 1983. É com orgulho que a população comemora o fim do analfabetismo em Furnas dos Dionísios.
O neto de Dionísio, Sebastião Abadio Martins, contou que seu avô, que dava muito duro em Minas Gerais, saiu de lá com sua família e se instalou na região cheia de morros, com terra fértil e água em abundância. A viagem, segundo relatou Sebastião, durou dois meses e foi feita em um burrinho, “animal pequeno, mas muito forte”, disse ele. Não se sabe ao certo com que idade Dionísio chegou nem com que idade morreu.
Com os herdeiros da terra, surgiram várias comunidades, como a dos Abadios e São Benedito. Todas são formadas, predominantemente, por negros. Muitos consideram os herdeiros de Dionísio uma comunidade quilombola. Mas, durante nossa visita, os próprios herdeiros nos disseram que não são quilombolas porque Dionísio não veio fugido e porque a escravidão já havia sido abolida quando o velho patriarca deixou Minas Gerais.
Por várias décadas, a comunidade permaneceu isolada, por ser uma área de difícil acesso. E foi o isolamento que a ajudou a preservar valores sociais e culturais.
Em Furnas dos Dionisios, a união faz a força. O sustento vem do cultivo da terra (mandioca, cana-de-açúcar e derivados) e da criação de animais. O excedente é vendido nos municípios vizinhos por meio de uma associação de pequenos produtores locais. Há também uma horta comunitária.
Homens, mulheres e crianças também se unem para organizar seu lazer, muito fiel, ainda, a antigas tradições, como a dança da catira, a prática de rezas e a realização de quermesses. Durante anos, predominou a religião católica, com missa, batizado, casamento, primeira comunhão e procissão. Nos anos de 1990, grupos de evangélicos foram chegando. Não há rivalidade entre eles e sim, respeito aos dogmas e às doutrinas de cada religião.
Quando chegamos, era tempo de festas juninas. Ana Batista Silva, a matriarca do local, muito hospitaleira, também neta de Antonio Dionísio (faleceu em janeiro de 2010 aos 101 anos de idade), nos contou, na época, que as festas juninas são tradição antiga, especialmente a de Santo Antônio, padroeiro do local. A devoção ao santo foi trazida por Dionísio e foi aumentando depois que uma roça de arroz foi invadida por gafanhotos. Sebastião conta que seu pai vendo aquilo, gritou: “Oh, meu Santo Antônio, tira esses bichos da minha roça”. A bicharada, segundo Sebastião, levantou vôo e, como que por um encanto, sumiu.
O espírito de cooperação também se manifesta no preparo do salão de festa e das comidas para as comemorações de Santo Antônio. As mulheres e as meninas se reúnem ao redor do fogão de lenha. Cantam, conversam, enquanto enchem o tacho de arroz com carne-seca, frango, porco milho e mandioca. No fogão de barro, galinhas recheadas e leitões – tudo bem assado – dão água na boca.
Uma procissão segue em cantoria até a igreja em que o padre reza a missa. Seu ponto alto é o ofertório afro com as crianças levando frutas, flores e grãos para o altar. É hora de acender a fogueira e dar vivas a Santo Antonio.
É fim de festa. Furna dos Dionísios vai dormir feliz.

terça-feira, 16 de março de 2010

Primeiras palavras

Certa vez ouvi do jornalista Juvenal Portela a seguinte frase: “todo repórter é jornalista, mas nem todo jornalista é repórter”. Desde então, passei a usá-la como se fosse minha, tanto nas redações de rádio e televisão em que trabalhei como repórter, redatora e editora, quanto nas aulas que ministrei durante 30 anos no curso de Jornalismo, do Instituto de Arte e Comunicação Social da Universidade Federal Fluminense. Afinal, o (a) repórter acompanha o pulsar dos acontecimentos, no momento da ação. É “testemunha ocular da história”, como dizia o slogan do velho Repórter Esso. É ele (a) quem vivencia e descreve o cotidiano dos que são notícia, não importa a que categoria social seus personagens pertencem. É ele (a), que na neutralidade que lhe é exigida, expõe sua parcialidade na seleção das palavras escritas, na ênfase das frases ditas, na expressão de seu olhar.
Foi como repórter que conheci o Brasil de norte a sul, especialmente depois que passei a atuar no jornalismo científico. Em minhas andanças, constatei que o Brasil não se resume ao eixo Rio-São Paulo, com variantes para Belo Horizonte e Brasília. Conheci diferentes brasis e brasileiros que ainda hoje me fazem acreditar que é possível viver a utopia de uma sociedade melhor. Eles pouco ocupam os espaços dos jornais, das televisões e dos noticiários radiofônicos. São pessoas que fogem a padrões sensacionalistas na maneira de viver e de se comportar. Acreditam que a dignidade do ser humano está no trabalho honesto, seja ele simples e rudimentar, ou complexo e sofisticado.
É especialmente sobre esses brasileiros que quero escrever neste blog, embora não exclusivamente. Há espaço para outros assuntos que me despertaram e ainda despertam meu interesse.
Optei por um blog porque nele posso escrever o tanto que quiser, sem me preocupar com um determinado número de páginas. Hoje escrevo algumas linhas, amanhã, outras tantas e por aí vai. Também não preciso começar com "era uma vez" nem seguir uma cronologia. Os escritos virão na medida das lembranças que guardo e de anotações que fiz e que estão espalhadas em pastas desorganizadas.
Espero ter alguns leitores e críticos. Que dentre eles estejam futuros jornalistas que hoje estão nas salas de aula das muitas faculdades espalhadas por aí, embora o diploma não seja mais exigência para o exercício da profissão. Mas voltará a ser em breve, espero. Espero, também, que um dia esses estudantes possam viver a instigante profissão de repórter que me levou a andar por aí.